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Ele vai mudar, mamãe


Me tornou uma mulher morta  nem chorou no funeral.
Eu era como o sol e você me tornou algo sem brilho.
Mamãe sempre avisou: atire antes que ele atire primeiro.
Ah mamãe, eu fui baleada. 
Acertou meu coração primeiro e depois foi me destruindo.
Parte por parte. 
Poque nunca te dei ouvidos?
Atirou tantas vezes que já nem me lembro mais.
Primeiro meu psicológico. Me fez acreditar em tantas coisas.
Primeiro me convenceu de que eu era perfeita. 
Éramos perfeitos um para o outro, ele me disse. 
Ah mamãe ele me enganou direitinho. 
Depois me convenceu de que eu não merecia ninguém alem dele. 
Depois, foi aos pouquinhos eu juro, m convenceu de que eu era nada.
Burra e inútil.
Ah mamãe, ele atirou repetidas vezes e eu achando que ele ia parar.
Você não via nada mas parece que mãe sabe.

Nossa casa, nosso filhos, nossa vida. Mas nada era nosso.
Era tudo dele, inclusive eu. Propriedade dele. 
Eu não podia nada, mamãe. Eu não podia sair, falar com eles nem estudar.
Mamãe, eu achei que ele ia mudar. 
Me prometeu que se eu me comportasse ele também se comportaria.
Queimou minhas roupas na frente das crianças dizendo que mulher não usava aquilo.
Me deu vários presentes, varias roupas novas e me pediu perdão.

Mamãe, para mim aquilo nunca aconteceria mas eu vi um objeto voando em minha direção.
Sou uma mulher morta te dizendo que nunca acreditei que morreria por dentro quando vi ele me jogar no chão. Um homem decente, um homem educado, um homem criado com tanto amor pelos pais. Aonde estava o amor que ele me prometeu?  Ele estava ali em alum lugar, eu tinha certeza. As manchas roxas sumiam depois de alguns dias, então tudo bem, mesmo que de vez em quando acontecesse novamente. Afinal ele só estava estressado do trabalho. Foi demitido, claro que estava mal. Por isso que ele não pensou direito e fez na frente das crianças mesmo.

Mamãe, eu não deveria ter deixado as crianças verem aquela cena. Mas acho que foi bom elas verem pois os gritos delas fez ele parar um pouco antes de eu desmaiar. O problema foi no dia que os gritos delas não o fez parar. Claro que fui para cima dele quando ele foi para cima delas. Eu prometi a elas que iriamos embora. Mas só as mandei para a sua casa. Mamãe eu sei que as crianças ficaram muitas vezes aí e você amava isso. Mas elas não.
Morri tantas vezes que nem senti quando a morte estava chegando. Aonde ele havia conseguido um revolver? Mamãe eu me lembro como eu estava feliz trabalhando no que amava, lembro quando ganhei o carro e lembro quando soube que estava gravida. Eu lembro que eu era feliz, mamãe, e foi tudo ao lado dele. Aonde foi parar aquele homem? Achei que um jantar romântico ou algo do tipo faria ele voltar, mas eu fui baleada novamente por ele. E dessa vez não falo metaforicamente.
Ainda bem que as crianças estavam com você, mamãe. Não abra o portão para ele. Não deixe as crianças verem-no. Nunca. Mamãe, não deixem as crianças saberem quem foi ele nos últimos 10 anos. Conte para elas quem ele era antes de nos casarmos, ma conte só das coisas boas. Não conte como ele me proibia quando ainda namorávamos, não conte para elas como ele me tratava e do que dizia que nunca me deixaria fazer. Mamãe, não conte para as crianças que ele em traiu. Mamãe, só conte as coisas boas.
Ele me amava, ele amava. Só estava um pouco mal. Ele não fez pro querer mamãe. Ele vai mudar. Mas não deixe ele perto das crianças.

Letícia Pontes dos Santos


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