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Tempo perdido



Ela era tão inocente na infância. Afinal quem não é? Doce, sem nenhuma amargura, nenhuma cicatriz. Mas começaram ali mesmo as mudanças que foram destruindo-a. Um palavrão que aprendeu, um bullying que sofreu, um castigo que não merecia, uma crítica que julgava ela inferior e por ai foi. E os anos foram passando e tudo aquilo se intensificava, a cobrança para ser diferente, pintar as unhas, cortar os cabelos, mudar o estilo de roupa, ter um namorado, ser mais magra, ser mais popular, e ela nem notava que estava cedendo à tudo isso. As notas escolares diminuindo, as brigas com os pais, os cigarros e álcool aos quinze anos, a ausência do pai logo em seguida, a tristeza da mãe afetando tudo que ela fazia e cada dia as coisas afundaram mais. 

Hoje em dia, com os próprios filhos dela já adultos, ela se pergunta porque não fez diferente, porque não valorizou mais os próprios pais e a si mesma. Ela diz que se tivesse a chance de voltar no tempo, faria tudo diferente e que dessa vez seria uma pessoa melhor. Mas ela não pode voltar no tempo.

Letícia Pontes


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