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Cafajeste


Quando Maria entrou pela porta da frente, eu estava no sofá fazia mais de duas horas sentado, suando, tremendo e planejando o meu discurso. Eu não queria mais aquele relacionamento falido há tantos anos, agora eu só precisava criar coragem e dizer. Ela passou direto para a cozinha. Eu ansioso, fui atrás. Sentei na cadeira disposta ao lado da mesa e observei-a fuçar na geladeira sem se importar com a minha presença. Respirei fundo e lembrei do texto decorado que eu vinha preparando fazia meses para evitar magoa-la.

-Maria...

Ela nem se virou, continuou procurando sei lá o que.

-Diga.

-Precisamos conversar.

Meu coração disparado, as mãos suadas e as pernas bambas. Eu finalmente falaria o que estava engasgado há tanto tempo. Nós já não nos pertencíamos mais e não havia nada que nos prendesse um ao outro. Eu só esperava que ela concordasse com isso sem sofrer tanto.

-É Lúcio, precisamos.

Ela se virou para mim com um pote de sorvete na mão e caminhou até a gaveta pegando um colher grande e começando a comer. Eu não sabia identificar que tipo de olhar era aquele exatamente, ma parecia total indiferença.

-Eu estou com outra pessoa, Lúcio.

-O que?

Maria nunca tivera muito tato para notícias, lembro bem da forma que ela me anunciou dez anos atrás sobre a morte da minha mãe. Ela não sabia enrolar, era direta e fria.

-Conheci alguém, começamos a sair e gosto dele. Estamos juntos faz um ano. Vim arrumar as minhas malas e já falei com um advogado para resolvermos a questão do divórcio.

De repente eu percebi que eu sempre fiz papel de trouxa, sempre sendo bom, cuidadoso, protetor, tentando sempre usar as palavras certas e olhar pelo lado dela. Pra que? Agora ela havia apertado um botãozinho em mim que eu nem sabia que existia. De repente nada mais importava e para mim toda mulher passara a ser igual. Nenhuma presta. E assim nasce um cafajeste.


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